Sociedade

Moçambique: A Nação da Xiguinha e a Arte de Vencer a Escassez

A vida em Moçambique, frequentemente marcada por desafios, revela uma resiliência notável, onde a capacidade de transformar o impossível em realidade se manifesta de formas surpreendentes. Uma dessas manifestações é a ‘xiguinha à manhambanense’, um prato humilde que se ergue como um símbolo da inventividade e da força do povo moçambicano.

A recordação de uma noite de maio de 2026, impulsionada pelas redes sociais, transporta-nos para o início de 2010. Na altura, um jovem Bernardo Soares chegava a Maputo, vindo de Quelimane, com o sonho de estudar Jornalismo. Trazia consigo a esperança, mas também o peso da fome, uma constante naqueles primeiros tempos na capital. Maputo, que inicialmente parecia uma “senhora séria”, revelou-se uma cidade complexa, exigindo adaptação e muita luta.

Os primeiros tempos foram de verdadeira sobrevivência. O autor recorda-se de um quarto junto à drenagem da Rua 14, em Choupal, onde a presença de mosquitos era tão intensa que pareciam parte da família. Mas foi na zona da paragem Xai-Xai que uma experiência marcante o esperava, ao alugar um quarto na casa da “avó da Neid”, uma senhora que encarnava a dignidade e a soberania sobre a miséria.

Nessa casa, a fome não era uma ausência, mas uma presença palpável, uma “personagem” que rondava os pratos e dormia com todos. A avó, uma vendedora de carvão, regressava sempre coberta de pó negro, mas com uma sabedoria secreta: a arte de inventar abundância onde só existia vazio. Ela cuidava dos netos, crianças deixadas pelos pais com promessas de “já volto” que se estendiam por infâncias inteiras, uma triste realidade que “emagrece as pessoas até lhes tirar a identidade”.

Um entardecer sem nada para cozinhar tornou-se palco de um “milagre moçambicano”. Com olhos de garimpeira, a avó reuniu um pedaço de mandioca, uma mão de tcheke, alguns grãos de amendoim de uma vizinha e folhas de feijão-nhemba de outra. Cada ingrediente, um “refugiado de sua própria pobreza”, era adicionado à panela com a serenidade de quem conversa com os espíritos. Os netos, habituados ao “barulho da fome”, esperavam em silêncio.

Daquela “arqueologia alimentar” nasceu uma refeição verdadeira. Uma “xiguinha”, mas não a que o autor conhecia de Quelimane. Esta era uma “xiguinha sobrevivente”, “remendada”, “feita de improviso nacional”, uma “xiguinha à manhambanense”. Um prato que harmonizava, talvez, “com sofrimento”, mas que alimentava o corpo e a alma.

Hoje, muitos anos depois, percebe-se que Moçambique é, de facto, um “país de xiguinha à manhambanense”. Um lugar onde as pessoas “cozinham impossíveis”, as mães “transformam escassez em refeição” e as avós “remendam a pátria com folhas de nhemba e restos de mandioca”. É a maior tragédia, sim, mas também a mais bela poesia de uma nação que inventa felicidade com ingredientes que nunca chegam.

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