Moçambique: A Ingenuidade que Transforma a Escassez em Refeição

Na noite de 18 de maio de 2026, as redes sociais trouxeram à tona uma memória vívida para o autor, uma lembrança que, como muitas em Moçambique, parece apenas mudar de roupagem para nos confrontar com a realidade persistente do país. Esta é a história de uma resiliência singular, onde a criatividade e a sobrevivência se entrelaçam na arte de cozinhar o impossível.
A Chegada à Capital e os Desafios Iniciais
No início de 2010, ao chegar a Maputo vindo de Quelimane para estudar Jornalismo, o autor trazia consigo não apenas pertences, mas também sonhos e uma fome que se revelaria a mais pesada das bagagens. A capital, inicialmente vista como uma “senhora séria”, rapidamente revelou sua complexidade, assemelhando-se a “certas tias bonitas: primeiro sorri, depois complica”.
Antes de conseguir uma “belicha” por misericórdia na Maxaquene Khov-Lar, o jornalista enfrentou condições de vida precárias, incluindo uma estadia num quarto junto à drenagem da Rua 14, em Choupal, onde a proliferação de mosquitos era uma constante. As noites difíceis muitas vezes o levavam a procurar refúgio nos mangais de Namuinho, em Quelimane, uma fuga de uma “guerra aérea” de insetos.
A Soberania Doméstica e o Milagre da Cozinha Moçambicana
A jornada levou-o a uma casa alugada na zona da paragem Xai-Xai, com uma idosa conhecida apenas como “a avó da Neid”. Esta mulher, como muitas outras empobrecidas, parecia ter perdido o nome, tornando-se apenas parente de alguém, um reflexo de como “o país faz isso: emagrece as pessoas até lhes tirar a identidade”. Ela vivia com netos, crianças deixadas pelos pais com a promessa de um “já volto” que, para os pobres, muitas vezes durava uma infância inteira.
Contudo, a “avó da Neid” possuía uma “soberania doméstica” notável. Reinava sobre a miséria sem nunca lhe pedir licença. Naquela casa, a fome não era ausência, mas uma personagem presente, que “tossia, rondava os pratos, dormia conosco”. Ela vendia carvão, regressando sempre coberta daquele pó negro, mas guardava uma “ciência secreta: a arte de inventar abundância onde só existia vazio”.
Um certo entardecer, sem nada para cozinhar, presenciou-se o “milagre moçambicano”. De um pedaço de mandioca, uma mão de tcheke colhida no quintal, alguns grãos de amendoim de uma vizinha e folhas de feijão-nhemba de outra, a velha senhora criou uma refeição. Cada ingrediente, um “refugiado de sua própria pobreza”, era cozinhado lentamente, com a serenidade de quem “conversa com os espíritos da panela”. Os netos, habituados a respeitar “o barulho da fome”, esperavam em silêncio.
Dessa “arqueologia alimentar” nasceu uma “comida verdadeira”, uma “xiguinha” singular. Não era a xiguinha da terra do autor, mas uma “xiguinha sobrevivente. Uma xiguinha remendada. Uma xiguinha feita de improviso nacional. Uma xiguinha à manhambanense”.
Moçambique: A Poesia da Sobrevivência
Muitos anos depois, o autor compreende que Moçambique é, talvez, exatamente isso: “um país de xiguinha à manhambanense”. Um lugar “onde pessoas cozinham impossíveis, mães transformam escassez em refeição, avós remendam a pátria com folhas de nhemba e restos de mandioca, o povo inventa felicidade com ingredientes que não chegam”.
Esta realidade, ao mesmo tempo “maior tragédia” e “mais bonita poesia”, revela a essência de um povo que, com engenhosidade e uma resiliência inabalável, continua a reinventar a vida e a encontrar esperança nas circunstâncias mais adversas.



