FMI diz que Moçambique precisa de meio milhão de empregos por ano ou caos social

Moçambique enfrenta um desafio urgente: precisa de criar cerca de 550 mil novos empregos por ano até 2030 para evitar um agravamento da pobreza e da instabilidade social, de acordo com um relatório recente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta é uma corrida contra o tempo, com uma “janela de oportunidade” que se está a fechar rapidamente.

A Bomba Demográfica e a Escassez de Oportunidades
Com metade da sua população com menos de 17 anos e uma taxa de fertilidade de aproximadamente cinco filhos por mulher, Moçambique vê centenas de milhares de jovens a entrar no mercado de trabalho anualmente. O FMI alerta que o país não está preparado para absorver esta força de trabalho crescente, o que representa uma “bomba-relógio demográfica” com sérias implicações para a estabilidade nacional.

Os números são alarmantes: para acomodar o fluxo de jovens que anualmente atingem a idade activa, Moçambique necessita de gerar, no mínimo, 550 mil novos postos de trabalho por ano até ao fim desta década, e esta necessidade continuará a aumentar nas décadas seguintes.
Crescimento Económico que Não Gera Emprego
O problema não reside apenas na quantidade de jovens à procura de trabalho, mas também na fraca capacidade da economia moçambicana de converter o crescimento em empregos. O FMI sublinha que Moçambique gerou apenas um quarto dos empregos por unidade de crescimento económico em comparação com outros mercados emergentes fora da África Subsariana.
Esta desconexão deve-se, em grande parte, à estrutura da economia. Nos últimos anos, o crescimento foi impulsionado principalmente pela indústria extractiva, como os grandes projectos de Gás Natural Liquefeito (GNL). Embora estes projectos gerem riqueza, são intensivos em capital e tecnologia importada, criando poucos empregos para a vasta maioria da população moçambicana, especialmente para jovens sem formação especializada.
Em contraste, o sector manufactureiro, que tradicionalmente é um grande criador de emprego formal em países em desenvolvimento, tem vindo a diminuir desde o início dos anos 2000. Esta contracção é preocupante, pois é precisamente este sector que tem a capacidade de absorver trabalhadores menos qualificados e, progressivamente, capacitá-los.
A Realidade do Emprego Informal e a Pobreza
Para a maioria dos moçambicanos que conseguem trabalho, a realidade é a informalidade. Cerca de 95% dos empregos no país estão fora da economia formal, o que significa salários baixos, ausência de protecção social e instabilidade. A agricultura, que emprega três quartos da força de trabalho e contribui com um quarto para o PIB, é o epicentro desta informalidade, caracterizando-se por baixa produtividade e acesso limitado a recursos modernos para os pequenos camponeses.
As consequências desta situação já são visíveis: dois terços da população vivem agora abaixo da linha da pobreza, um aumento significativo face aos 45% registados em 2014. O Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas coloca Moçambique na 182.ª posição entre 193 países, um retrocesso de décadas nos indicadores sociais. A falta de empregos dignos agrava a pobreza e a insegurança alimentar, aumentando o risco de tensões sociais, como as observadas após as eleições de 2024.
O Caminho Para a Mudança: Diversificação e Investimento
O FMI não se limita a diagnosticar o problema, mas também propõe um caminho. Para transformar a ameaça demográfica num “dividendo”, Moçambique precisa de apostar num modelo de crescimento que gere muitos empregos, liderado pelo sector privado e focado na diversificação económica. Isso implica investir em áreas como a agro-indústria, o turismo e os serviços modernos, que têm um potencial real para absorver trabalhadores com diferentes níveis de qualificação.
Além disso, são cruciais investimentos na modernização da agricultura, na educação e qualificação dos jovens, na expansão do crédito ao sector privado (actualmente limitado pela forte presença do Estado no sistema bancário) e na melhoria do ambiente de negócios, combatendo a corrupção e fortalecendo a independência da justiça.
Apesar dos desafios, a oportunidade de mudar o rumo ainda existe. A população jovem pode ser uma grande vantagem, mas apenas se forem implementadas políticas eficazes e urgentes. O FMI é claro: “o relógio está a contar”.



