Cultura

Kuphahla: a “comunicação” com os antepassados

O “Kuphahla” é uma prática ancestral profundamente enraizada no quotidiano de várias comunidades moçambicanas, especialmente no sul do país. Este ritual singular representa um elo vital entre os vivos e os antepassados, onde a tradição, a fé e a identidade cultural se entrelaçam, gerando, por vezes, debates e diferentes interpretações.

O Que é o Kuphahla?

Este ritual envolve ajoelhar-se no chão e derramar uma bebida, que pode ser tradicional, alcoólica moderna ou simplesmente água, como forma de invocar os espíritos dos antepassados. Não exige um local específico, podendo ser realizado em casa ou debaixo de uma árvore, e o seu carácter sagrado reside na força da memória e dos ensinamentos transmitidos através das gerações.

Para muitos, o Kuphahla é uma fonte de proteção, orientação e equilíbrio na vida. Contudo, para outros, a prática pode gerar questões religiosas e dúvidas espirituais, mostrando a complexidade da sua aceitação social.

A Visão do Médico Tradicional

Fernando Mate, um experiente médico tradicional, descreve o Kuphahla como um ato direto de comunicação com os defuntos. Segundo ele, é um momento para partilhar informações, fazer pedidos ou solicitar permissão antes de tomar decisões importantes. Mate enfatiza que este contacto não é aleatório; requer conhecimento, preparação e um profundo respeito pelas regras espirituais.

O médico tradicional, que aprendeu a prática com um mestre, alerta que o Kuphahla não deve ser improvisado ou realizado por qualquer um. Antes da cerimónia, é crucial fazer uma consulta para entender a natureza da ligação espiritual envolvida. Em rituais mais complexos, é fundamental garantir que os antepassados estão prontos para receber o ritual. Caso contrário, podem surgir “espíritos intrusos” que não pertencem à família, causando desequilíbrios.

Fernando Mate compara o ritual a uma festa: “tal como numa celebração, é preciso convidar apenas quem se deseja presente. Caso contrário, pessoas indesejadas podem aparecer e interferir”, explica, sublinhando a importância da seletividade e da preparação.

A Experiência do Régulo José Matola

Para o régulo José Matola, o ato de “phahlar” (realizar o Kuphahla) é mais do que um símbolo; é uma forma palpável de interagir com os antepassados, a quem ele considera seus protetores e guias. Matola acredita que são eles que zelam pelos seus caminhos, abençoam os seus passos e asseguram o seu equilíbrio. Sempre que enfrenta dificuldades ou sente que algo não está a correr bem, ele recorre ao ritual.

Ajoelha-se, “phahla” e dialoga com os seus antepassados, pedindo que o acompanhem nos seus atos e projetos. Na sua experiência, a resposta é quase imediata: “as coisas tendem a alinhar-se, como se os caminhos voltassem a abrir-se”, afirma. É esta crença forte que o motiva a manter viva esta prática tradicional na sua vida.

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