Saúde

Viver a menopausa sob tabus e sem guia

Em Moçambique, a menopausa, uma fase natural e inevitável na vida de qualquer mulher, é frequentemente marcada por silêncio, desinformação e tabus. Muitas mulheres enfrentam este período de grandes transformações físicas e emocionais sem o devido apoio ou conhecimento, o que pode agravar os sintomas e comprometer a sua qualidade de vida.

Uma Luta Pessoal que Virou Apoio Coletivo

Há três anos, Gizela Monteiro viveu na pele a angústia de passar pela menopausa sem entender o que se passava com o seu corpo. As discussões fáceis, a irritabilidade, as ondas de calor e os suores noturnos eram constantes, deixando-a confusa e desconfortável. Longe de encontrar respostas nos profissionais de saúde da altura, Gizela recorreu ao “Dr. Google” para desvendar os mistérios dos seus sintomas.

Dessa experiência desafiadora, nasceu o movimento “Menos Pausa, Mais Conhecimento”. Com o objetivo de evitar que outras mulheres passem pelo mesmo sofrimento, Gizela criou uma plataforma social fechada, que hoje reúne 87 mulheres entre os 35 e os 60 anos. Neste espaço, elas conversam abertamente sobre a menopausa, partilham experiências, apoiam-se mutuamente e redescobrem-se, desmistificando a ideia de que esta fase significa o fim da sua vitalidade.

Para enriquecer ainda mais o movimento, Gizela conta com a parceria de especialistas como uma ginecologista, uma nutricionista, uma treinadora física e uma professora de dança. Estes profissionais são cruciais para oferecer um acompanhamento completo e holístico às participantes. Além disso, o movimento promove “workshops” e disponibiliza um livro digital, reforçando a importância da informação para combater os tabus.

Gizela lamenta que a falta de informação leve muitas mulheres a esconderem-se e a não procurarem ajuda. “Muitas mulheres não têm apoio no meio familiar, sobretudo dos parceiros, e por isso fecham-se”, afirma. Ela partilha o testemunho de uma mulher que ouviu do parceiro que “não queria saber” do assunto, revelando a crença errada de que a mulher se torna “sexualmente inútil” nesta fase.

O Que é a Menopausa e os Seus Sintomas

A menopausa é o marco fisiológico que assinala o fim dos ciclos menstruais, sendo diagnosticada após 12 meses consecutivos sem menstruação. Geralmente, ocorre entre os 45 e os 55 anos, marcando o fim do período reprodutivo da mulher.

Este processo acontece devido à redução dos hormónios estrogénio e progesterona, que são essenciais para o equilíbrio do organismo feminino. A ginecologista Milene Mucache explica que, embora muitas mulheres saibam que deixarão de menstruar, poucas estão preparadas para compreender e lidar com a transição menopáusica, um período que pode durar até 10 anos e ter impactos significativos na saúde física e emocional.

Os primeiros sinais de transição podem surgir por volta dos 40 anos, com alterações no ciclo menstrual, como irregularidade ou redução do fluxo. Gradualmente, podem aparecer sintomas como ondas de calor, alterações de humor, insónia, fadiga, dificuldade de concentração e secura vaginal.

A queda hormonal não afeta apenas o ciclo menstrual; tem repercussões sistémicas. Entre os principais impactos, Milene Mucache destaca o aumento do risco de doenças cardiovasculares, a perda de massa óssea e a síndrome geniturinária da menopausa, que causa secura vaginal, dor durante as relações sexuais e alterações urinárias. A saúde mental também pode ser afetada, com maior predisposição a sintomas depressivos e irritabilidade.

Sexualidade Ativa e Tipos de Menopausa

Contrariamente à crença popular, a sexualidade na fase pré e pós-menopausa permanece ativa, embora com uma nova dinâmica. A ginecologista Milene Mucache esclarece que a queda hormonal pode tornar a resposta sexual mais lenta e causar atrofia ou secura vaginal, dificultando as relações sexuais. Nesses casos, a mulher pode recorrer a cremes vaginais de estrogénio ou adesivos.

Gizela Monteiro aconselha os casais a explorarem mais o campo do desejo sexual de forma recíproca, desenvolvendo atividades a dois para estimular a intimidade. O uso de lubrificantes à base de água é também uma alternativa recomendada para reduzir o desconforto durante o ato sexual.

É importante saber que a menopausa pode manifestar-se de diferentes formas. Considera-se precoce quando ocorre entre os 40 e 45 anos. Antes dos 40, é chamada de falência prematura dos ovários, uma condição menos comum que requer atenção diferenciada. Existem também casos de menopausa não natural, resultantes de cirurgias de remoção dos ovários ou tratamentos como quimioterapia. A menopausa tardia, após os 55 anos, também merece ser monitorizada, pois pode estar associada a um maior risco de certas doenças ginecológicas, como o cancro do endométrio.

Cuidados Essenciais e Opções de Tratamento

A partir dos 40 anos, as mulheres devem redobrar a atenção à sua saúde. As consultas ginecológicas anuais são fundamentais e devem ser complementadas por avaliações específicas que incluam a saúde cardiovascular e a função hepática, especialmente porque certas condições podem contraindicar a terapia hormonal.

Milene Mucache sublinha que a menopausa representa uma mudança de foco nos cuidados de saúde: “Se, antes, as principais preocupações envolviam contracepção e gravidez, nesta fase a atenção deve se voltar para a prevenção de doenças cardiovasculares, osteoporose e para a manutenção da qualidade de vida”.

Estudos demonstram que mudanças no estilo de vida são muitas vezes a primeira linha de abordagem. A prática regular de atividade física, uma alimentação equilibrada, técnicas de relaxamento, meditação, yoga e terapia cognitivo-comportamental podem reduzir significativamente os sintomas físicos e emocionais.

Para sintomas mais severos, a terapia de substituição hormonal (TSH) pode ser indicada. Este tratamento, que consiste na reposição de hormónios, principalmente estrogénio, pode aliviar ondas de calor, melhorar a secura vaginal e preservar a massa óssea. A TSH pode ser administrada por via oral, adesivos transdérmicos ou cremes vaginais, sendo a indicação sempre individualizada e dependente de uma avaliação médica criteriosa. A especialista alerta para a “janela de oportunidade”: mulheres com menos de 60 anos e até dez anos após o início da menopausa tendem a ter uma melhor relação entre riscos e benefícios da terapia hormonal.

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