Análise

Xenofobia na África do Sul: A Ironia de uma História Esquecida

A África do Sul, na sua complexa realidade pós-apartheid, volta a confrontar-se com os seus fantasmas xenófobos, onde a figura do estrangeiro africano se torna, uma vez mais, o bode expiatório conveniente face a desafios internos como o desemprego e a desigualdade.

O Ciclo Vicioso da Xenofobia Sul-Africana

Desde 2008, um enredo familiar se repete no cenário sul-africano: quando o desemprego assola e a desigualdade persiste, a culpa recai sobre os migrantes de países vizinhos como Moçambique, Zimbábue ou Maláui. Esta dinâmica distrai da necessidade de questionar as estruturas económicas herdadas, oferecendo uma vantagem política perversa: o estrangeiro, sem voto nem voz, torna-se um alvo fácil.

Memória Seletiva: O Legado do Apartheid e a Solidariedade Regional

É crucial recordar que a própria liberdade sul-africana foi, em tempos, construída com o sacrifício de nações vizinhas. A carta aberta de Mia Couto a Jacob Zuma em 2015 serve como um lembrete pungente dessa solidariedade regional, que teve um custo em sangue e vidas. A ironia reside na amargura de uma memória política curta e, por vezes, seletiva, onde a institucionalização da diferença, outrora combatida, parece ressurgir.

A perversidade histórica atinge um ponto alarmante quando os negros, que um dia foram subjugados, agora replicam a opressão contra outros africanos. O mesmo país que denuncia genocídios em fóruns internacionais, tolera a perseguição sistemática de africanos pobres nas suas próprias cidades, revelando uma ginástica moral desconfortável.

Além do Estrangeiro: As Raízes da Crise Sul-Africana

Reduzir a complexa crise sul-africana à presença do estrangeiro é uma falha analítica. Os problemas são mais profundos: residem no desemprego estrutural, na desigualdade abismal e numa economia que, apesar de democratizar o voto, falhou em democratizar a riqueza. A longa sombra colonial, com suas fronteiras artificiais e dependências económicas, também alimenta ressentimentos acumulados.

Culpar o imigrante é uma simplificação que ignora a complexidade do tema, onde a migração irregular, embora desafiadora para os serviços públicos, não é a causa primordial dos males sociais. Esta narrativa populista ganha terreno num cenário político onde a tentação de explorar o medo por votos é crescente, substituindo a criação de empregos pela promessa fácil de expulsar o “outro”.

A Violência Discreta: Do Desprezo Burocrático aos Saques

Antes mesmo dos tumultos e dos saques, a xenofobia manifesta-se em gestos quotidianos: o olhar atravessado, a burocracia seletiva, a humilhação microscópica. A experiência de um passaporte moçambicano ser visto com suspeita em aeroportos sul-africanos é um exemplo da violência banal e quase invisível que precede a explosão pública.

A tragédia final é a de um país que, tendo ensinado ao mundo lições de resistência contra a opressão, parece esquecer a própria gramática da sua libertação. As vítimas de ontem correm o risco de imitar os seus antigos carrascos, enquanto nas redes sociais, o apelo “estrangeiros, voltem para casa” ignora que muitas dessas “casas” e a própria liberdade foram construídas com o contributo daqueles que hoje se quer expulsar.

- PUBLICIDADE -

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo
Fechar

Ops! AdBlock Detectado!

Desative o bloqueador de anúncios para continuar acessando o conteúdo do Portal Afroline. Agradecemos sua compreensão!