A escultura do som

Moçambique é um país abençoado com uma riqueza cultural e tradições vibrantes, onde a música é um pilar fundamental na preservação da identidade dos seus povos. Cada nota, cada batida e cada sopro dos instrumentos tradicionais contam histórias ancestrais, celebram a vida e mantêm viva a memória coletiva. Nesta edição, o nosso blogue mergulha no universo dos instrumentos musicais do Norte e Centro de Moçambique, revelando a beleza e o significado por trás de cada “escultura do som”.

A Chitata: O Piano de Mão Moçambicano
A Chitata, também conhecida como Casasse, é um instrumento idiofone afinado, amplamente encontrado nas regiões Centro e Norte de Moçambique, embora com algumas variações no seu nome e formato. Este “piano de mão” é composto por uma tábua de madeira, que serve de base, onde são fixadas várias palhetas de ferro. Estas palhetas são presas por um ou mais travessões metálicos, produzindo sons melódicos ao serem vibradas com os dedos. A Chitata é um símbolo da musicalidade popular, presente em diversas celebrações e momentos de convívio.

O Tchakare: A Voz dos Sentimentos
Com um design que partilha algumas semelhanças com outros instrumentos da região, o Tchakare é um cordofone que narra as vivências de várias províncias moçambicanas. Segundo relatos como o de Afito, este instrumento tem um papel especial em momentos fúnebres. “Chama-se uma pessoa mais velha da comunidade e esta faz um tipo de som que ao escutar faz entender que é específico para aquela ocasião”, explica Afito, destacando que o Tchakare é “um instrumento sentimental, diferente do chitata que emite um som agitado”.
A corda do Tchakare, que dá nome à categoria de cordofone, passa diretamente sobre uma caixa de ressonância. Esta caixa é geralmente feita de madeira e coberta com uma membrana de pele de lagarto (especificamente, varano d’água). O músico segura o instrumento de forma que a caixa toque o seu abdómen ou ombro. Com uma mão, pressiona a corda – feita de raiz de murapa e impregnada com resina da árvore chakari – para alterar o som, enquanto com a outra, fricciona-a com um arco. As suas designações variam regionalmente: no Niassa e Zambézia, é conhecido como Siribo; em Nampula, como Viela; e em Cabo Delgado, como Kanhembe. Embora presente em Tete e Inhambane, a sua ocorrência é mais restrita. O Tchakare pode ser tocado individualmente ou em conjunto com outros instrumentos e canções.
O Masseve: Ritmo e Dança nas Pernas
O Masseve é um instrumento idiofone do tipo chocalho, semelhante ao Gocha, que também dá nome a uma dança. Feito a partir de pequenos frutos secos e ocos, o Masseve é usado tanto nas mãos quanto nas pernas dos dançarinos. Os frutos são dispostos em várias fiadas e amarrados com cordas às pernas. Dentro de cada fruto, são colocadas pedrinhas ou sementes que produzem o som característico quando o dançarino agita as pernas ou bate os pés no chão. Este instrumento rítmico é encontrado em quase todo o país, mas os seus nomes variam: em Cabo Delgado, é Meve; na Zambézia, Massagué; e em Nampula, Marrazula, Maxoxoro ou Masseve. O Masseve é a personificação do ritmo e da energia das danças tradicionais moçambicanas.



