Crise de Divisas Trava Crescimento e Inflaciona Preços em Moçambique

Um estudo aprofundado do Centro de Integridade Pública (CIP), divulgado esta terça-feira, revela que a persistente escassez de moeda externa em Moçambique tem um impacto adverso profundo na economia nacional, travando o Produto Interno Bruto (PIB) e acelerando a inflação.
A análise do CIP, que examinou o período entre 1990 e 2024, investigou a influência da escassez de divisas e da taxa de câmbio oficial sobre variáveis macro-fiscais cruciais como o crescimento económico, importações, inflação, défice fiscal e dívida pública. O estudo concluiu que o PIB, o défice fiscal e os meses de cobertura de importações registaram uma tendência decrescente face à escassez de divisas, enquanto a inflação e a taxa de câmbio oficial manifestaram uma tendência crescente.
Impactos Macro-fiscais Detalhados
De acordo com a economista Teresa Boane, responsável pelo estudo, a depreciação da taxa de câmbio impactou negativamente o PIB real. As importações de bens e serviços diminuíram quando a escassez de divisas e a depreciação cambial interagiram. Notavelmente, um aumento de 1% na taxa de câmbio oficial levou a um acréscimo de aproximadamente 0,31% no nível geral de preços, ou seja, na inflação. A pesquisa também demonstrou que a depreciação cambial contribuiu para um aumento significativo da dívida pública total, e a escassez persistente de moeda estrangeira prejudicou empresas, resultando em falências, desemprego e redução do bem-estar social.
O CIP sublinha que a economia moçambicana é “estruturalmente vulnerável à escassez persistente de moeda estrangeira e às flutuações da taxa de câmbio”. Estas pressões externas, segundo a organização, “afectam significativamente a estabilidade macroeconómica, a dinâmica da dívida pública, a inflação e o desempenho do sector privado”.
Recomendações de Política
Face a este cenário, o CIP propõe um conjunto de prioridades políticas essenciais. Entre elas, destacam-se o reforço da coordenação entre as autoridades fiscais, monetárias e cambiais; a redução da exposição da dívida pública ao risco cambial, incentivando o endividamento em moeda nacional; e a melhoria da estabilidade da taxa de câmbio e da gestão das reservas internacionais. Adicionalmente, o estudo sugere a expansão da capacidade exportadora e a diversificação da base económica para aumentar as receitas em moeda estrangeira, bem como a melhoria da transparência na alocação de divisas e o reforço da gestão de riscos macro-fiscais.
Contexto Atual da Crise
Moçambique enfrenta há três anos uma crise persistente de divisas, com repercussões visíveis na distribuição de combustíveis e ameaças de suspensão de operações por parte de companhias aéreas devido à falta de moeda estrangeira. Paralelamente, desde 2021, o país observa uma suposta estabilidade da taxa de câmbio no sistema formal, contrastando com uma contínua depreciação no mercado informal.



