Economia

Dívida Pública Sufoca Bancos: Lucros Caem 70% em Moçambique

Os cinco maiores bancos comerciais de Moçambique enfrentaram uma acentuada queda agregada de 70,4% nos seus resultados líquidos em 2025, um declínio atribuído principalmente à sua elevada exposição à dívida pública nacional. Esta situação alarmante traduz-se numa diminuição absoluta de 12.131 milhões de Meticais, resultando em lucros totais de 5.099 milhões de Meticais para o setor bancário.

Análise de Especialista: O Impacto dos Empréstimos ao Estado

Em entrevista à “Carta”, o economista Egas Daniel sublinha que o financiamento “sem freio” concedido pela banca ao Estado moçambicano “afetou duramente os balanços” das instituições financeiras. Daniel, mestre em Economia no IGC-Moçambique, adverte que os bancos estão a atingir o seu limite, dada a crescente dificuldade do Estado em honrar as suas obrigações financeiras.

A falta de remuneração atempada dos empréstimos e a queda das taxas de juro tornaram os bilhetes e títulos do Tesouro, adquiridos ao Estado, cada vez menos rentáveis. “Os bancos ganham menos com compra de títulos e obrigações e já não podem aplicar com muita confiança os seus recursos ao Estado”, realça o economista, evidenciando a perda de atratividade da dívida soberana.

Asfixia Financeira e as Suas Consequências

Egas Daniel recorda que o recurso “abusivo” do Estado ao mercado doméstico para se financiar surgiu após a redução do apoio externo, desencadeada pela descoberta das dívidas ocultas em 2016. Os títulos do Tesouro, com reembolso de curto prazo, tornaram-se o principal instrumento de financiamento público, apesar de a falha nos pagamentos por parte do Estado impactar diretamente os resultados dos bancos.

A “asfixia da dívida pública” levou o Estado a uma situação de default perante os credores internos, replicando um cenário já vivido com os credores externos. Esta preferência da banca pela dívida soberana em detrimento do setor privado “secundarizou” este último, limitando o acesso a recursos para empresas, o que, por sua vez, “reduziu as receitas do Estado e a capacidade deste de honrar os seus compromissos”.

O Caminho para a Sustentabilidade Económica

O economista defende que a banca deve “de forma inovadora” reorientar o seu foco para o setor produtivo, historicamente “olhado com desconfiança”. Animar o setor privado é crucial para que o Estado “arrecade receita e seja capaz de pagar à banca comercial”, criando um ciclo virtuoso de crescimento económico.

Apesar de o Estado ser teoricamente um devedor de risco nulo, o seu perfil deteriorou-se, com os bancos a anteciparem pagamentos mais demorados. A situação fiscal foi agravada por fatores como a pandemia de COVID-19, a guerra na Ucrânia e a paralisação dos projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) em Cabo Delgado. Daniel conclui que o financiamento estatal através dos bancos, sem estimular o setor privado produtivo, impede a mobilização de receita e o crescimento económico sustentável.

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