Líder da oposição de Camarões morre na prisão em meio à crise pós-eleitoral

Anicet Ekane, uma figura proeminente da oposição camaronesa, faleceu aos 74 anos enquanto estava sob custódia militar, um incidente que reacende fortes acusações de negligência médica e aprofunda a já tensa crise política pós-eleitoral no país. A notícia da morte do veterano político, confirmada pela sua família e pelo partido Movimento Africano para uma Nova Independência e Democracia (MANIDEM), gerou uma onda de indignação.

Detenção e Acusações
Ekane foi detido há 38 dias, a 24 de outubro, na cidade portuária de Douala, e veio a falecer na capital, Yaoundé. A sua prisão ocorreu após manifestar apoio a Issa Tchiroma Bakary, o candidato da oposição que contestou os resultados da recente eleição presidencial. As autoridades acusaram Ekane de insurreição e rebelião, mas o seu partido insiste que as acusações tinham motivações puramente políticas.

Deterioração da Saúde na Prisão
O filho mais velho do político, Muna Ekane, revelou à Associated Press que o estado de saúde do pai piorou drasticamente na última semana, com dificuldades respiratórias severas. Segundo Muna, a família alertou as autoridades repetidamente sobre a condição de Ekane, mas nenhuma acção foi tomada para garantir o tratamento adequado. O advogado de defesa, Emmanuel Simh, corroborou, afirmando que Ekane estava muito debilitado e não recebeu a assistência médica necessária.
No domingo anterior à sua morte, o MANIDEM havia feito um apelo urgente para que Ekane fosse transferido para um hospital civil, alertando o governo sobre as potenciais consequências caso o pedido fosse ignorado.
Reações e Inquérito Governamental
O governo camaronês, através do ministro das Comunicações, René Emmanuel Sadi, expressou pesar pela morte e anunciou a abertura de um inquérito. O presidente Paul Biya, no poder há mais de quatro décadas, também ordenou uma investigação. As autoridades afirmam que Ekane estava a ser acompanhado por médicos militares em coordenação com a sua equipa médica particular. Contudo, o MANIDEM classificou a morte como um “assassinato”, enquanto a delegação da União Europeia lamentou o sucedido e reiterou o pedido de libertação de todos os detidos arbitrariamente desde as eleições.
Contexto de Crise Pós-Eleitoral
A morte de Ekane acontece num período de grande instabilidade política em Camarões, que se arrasta desde a contestada eleição presidencial de outubro, onde Paul Biya, de 92 anos, garantiu mais um mandato. Os protestos que se seguiram aos resultados oficiais têm sido marcados por violência, com o governo a reportar 16 mortes, enquanto a oposição e organizações de direitos humanos apontam para mais de 55 vítimas. Issa Tchiroma Bakary, o candidato apoiado por Ekane, já deixou o país e procurou refúgio na Gâmbia, citando preocupações com a sua segurança.
Legado de Anicet Ekane
Anicet Ekane dedicou quase cinco décadas à vida política, sendo uma figura central na luta pela democratização de Camarões nos anos 90. Admirado pelos seus apoiantes como herdeiro do legado nacionalista camaronês, ele testemunhou momentos cruciais da história política do país e manteve sempre um firme compromisso com a justiça social.



