Um País que se Lê

No Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, enquanto a cidade de Maputo se recolhe sob um frio invulgar, emerge uma reflexão profunda sobre o papel da leitura na sociedade moçambicana. Esta data, que coincide com a evocação de figuras literárias como William Shakespeare e Miguel de Cervantes, serve de lembrete não apenas da perenidade da palavra escrita, mas também do silêncio que por vezes envolve o hábito de ler no país.
A Leitura como Pilar do Pensamento Crítico
Em Moçambique, a discussão sobre livros é vasta, contudo, a prática da leitura ainda se revela limitada. O provérbio “quem aprende a ler, aprende a perguntar” sublinha a essência da leitura: a capacidade de questionar e de procurar respostas. O livro possui o poder sutil de nos levar para além da superfície, de desconfiar do óbvio e de nomear o que antes era apenas uma sensação vaga, promovendo uma inquietação necessária para o desenvolvimento individual e coletivo.
O Papel da Leitura na Formação e Educação
Instituições como a Universidade Pedagógica de Maputo, responsáveis pela formação de futuros professores, deveriam encarar a leitura não apenas como uma ferramenta pedagógica, mas como um ambiente propício à aprendizagem contínua. Ensinar, na sua forma mais pura, é capacitar o indivíduo a “ler o mundo”, a interpretar e a compreender as complexidades que o rodeiam. A questão, portanto, transcende o “que lemos?” para “quem nos tornamos quando lemos?”.
A Diversidade da Literatura e o Alargamento de Horizontes
A experiência da leitura é multifacetada. Alguns livros acompanham-nos como uma conversa prolongada, outros provocam um abalo imediato, e há aqueles que, silenciosamente, transformam algo em nós ao longo do tempo. É imperativo, por isso, alargar a mesa da leitura, explorando autores que oferecem diferentes perspetivas. Ler Chinua Achebe permite compreender como as narrativas podem restaurar a dignidade de um continente frequentemente descrito por olhares externos. Ngũgĩ wa Thiong’o revela a língua como território de identidade e disputa. Chimamanda Ngozi Adichie adverte sobre o perigo de uma única história. José Saramago incentiva a dúvida como forma de lucidez. George Orwell expõe a infiltração do poder na linguagem. Frantz Fanon confronta as feridas mais profundas da história e da identidade. Ler é, em essência, sentar-se à mesa com o mundo, absorvendo as suas múltiplas vozes.
O Livro: Uma Ferramenta Acessível e Subaproveitada
Num país onde muitos jovens universitários enfrentam desafios significativos – sejam eles económicos, sociais ou geográficos –, o livro permanece como uma das ferramentas mais acessíveis e, paradoxalmente, menos exploradas. Não exige eletricidade constante, não depende de rede de internet, nem de autorizações especiais; apenas de uma disponibilidade interior. O verdadeiro desafio reside em criar esse espaço para a leitura – nas escolas, nos lares e nos interstícios da vida quotidiana – transformando-a de uma obrigação para um encontro prazeroso.
O Impacto Transformador de um País que Lê
Afinal, a palavra não partilhada pesa no coração. Os livros existem para aliviar esse fardo. Neste dia frio, em que Maputo abranda, a escolha de um livro pode ser mais do que um mero cumprimento; é a abertura de uma janela para novos mundos. Um país que lê não é apenas um país mais instruído; é um país mais difícil de enganar, e essa transformação, discreta mas profunda, tem o poder de mudar tudo.



