Maputo: Crise de Transportes Deixa Milhares de Cidadãos à Espera

A Área Metropolitana do Grande Maputo enfrenta uma grave crise nos transportes públicos, com milhares de cidadãos a serem diariamente “pendurados” nas paragens e terminais. Esta situação é resultado da paralisação parcial dos transportes semi-colectivos de passageiros, popularmente conhecidos como “chapas”, que protestam contra a proposta governamental de compensação pela recente subida dos preços dos combustíveis.
Há mais de um mês que a deslocação na capital moçambicana se tornou um verdadeiro desafio. Inicialmente, a escassez de combustível dificultou o transporte; agora, a contestação dos operadores pela manutenção da tarifa, face aos custos crescentes, agrava o cenário. O Governo propôs um modelo de subsídio baseado na lotação, distância percorrida e tipo de combustível, acordado com a Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO). Contudo, a maioria dos operadores recusa o modelo, alegando falhas passadas onde apenas uma minoria, ligada ao partido no poder, teve acesso aos valores prometidos. A exigência é clara: a revisão da tarifa urbana.
Impacto Direto na Vida dos Cidadãos
As manhãs em Maputo são marcadas por um cenário desolador. Terminais como o da Costa do Sol e paragens em toda a cidade veem-se repletos de pessoas à espera, muitas vezes em vão, por um meio de transporte para o trabalho, escola ou hospitais. Desde a passada sexta-feira, muitos operadores optam por “desfilar” ou parquear os seus veículos, enquanto outros que tentam operar são impedidos pelos colegas.
Sem alternativas viáveis, inúmeros passageiros são forçados a percorrer longas distâncias a pé. Estudantes, numa semana crucial de avaliações trimestrais, são obrigados a faltar às aulas. Os poucos transportes que circulam aproveitam a situação para inflacionar os preços. Na rota Anjo Voador (Baixa) – Praça dos Combatentes (Xiquelene), por exemplo, os valores cobrados nesta segunda e terça-feira atingiram os 35,00 Meticais por viagem, com o agravante de muitas rotas serem encurtadas, terminando na Praça da OMM.
Carla Xerinda, encontrada na Praça da OMM, relatou ter esperado mais de três horas por um “chapa” para o Mercado de Xipamanine, tendo de recorrer a viaturas particulares que cobravam entre 20 a 50 Meticais. Ivandro Matsinhe, residente da Matola Gare, conseguiu chegar a Maputo em autocarro articulado, mas teve de pagar 100,00 Meticais a um mototáxi para chegar ao bairro da Coop, em vez dos habituais 15,00 Meticais.
A Perspetiva dos Transportadores e a Resposta Governamental
Laurêncio Mondlane, transportador na rota Zimpeto-Museu, descreve a dificuldade de operar, com a necessidade de usar vias alternativas e desembarcar passageiros antes do destino final devido à ação dos “mondjeiros” (angariadores de passageiros). Questionado sobre o modelo de compensação, Mondlane é categórico: “eu nunca recebi nenhum subsídio… não conheço nenhum colega com carro licenciado que tenha recebido esse apoio.”
A situação agrava-se ao cair da noite, com a escassez de “chapas” a levar os cidadãos a recorrer a alternativas perigosas e caras, como as carinhas de caixa aberta, conhecidas como “my love”, que também cobram valores exorbitantes. As “ligações” forçadas transformam viagens de 18,00 Meticais em 100,00 Meticais.
Em resposta ao caos, o Autarca de Maputo, Rasaque Manhique, anunciou uma medida para mitigar o problema: o licenciamento massivo e gratuito de transportadores semi-colectivos em situação irregular. O objetivo é integrar mais operadores no mecanismo de compensação financeira, na esperança de regularizar e estabilizar o serviço de transporte na capital moçambicana.



