Os paradoxos do dia do trabalho: memória, amnésia e a deriva do comum

O 1º de Maio, anualmente celebrado como Dia do Trabalhador, regressa como um ritual carregado de memória, mas também de paradoxos profundos que desafiam a sua essência. Em Moçambique, as celebrações, que incluem marchas, cantos e discursos, revelam uma fratura não apenas política, mas ontológica: a dissonância entre o que é proclamado e o que é efetivamente vivido pela sociedade.
O Primeiro Paradoxo: Da Luta à Gestão do Poder
Um dos paradoxos mais evidentes reside na transformação estrutural do partido que liderou a luta pela libertação nacional e que, outrora, advogava a igualdade como um horizonte absoluto. Atualmente, esse mesmo partido encontra-se, em grande medida, na posição daqueles contra quem um dia lutou. Esta não é uma acusação simplista, mas sim uma observação de uma profunda mutação histórica: a transição de uma postura revolucionária para uma de gestão do poder económico.
A questão não é a ascensão social de antigos combatentes, mas sim o facto de que essa ascensão não foi acompanhada por uma transformação estrutural das relações sociais. Consequentemente, a promessa original de emancipação coletiva converte-se numa redistribuição seletiva de poder dentro de um sistema que perpetua a desigualdade. Este fenómeno não é exclusivo de Moçambique, inserindo-se numa lógica global. Exemplos como a ascensão de setores populares à classe média no Brasil ou a institucionalização dos direitos sociais na Europa pós-guerra mostram como a mobilidade social pode, paradoxalmente, dissolver a consciência coletiva e a solidariedade, substituindo-as pelo consumo e pela mobilidade individual.
O Segundo Paradoxo: Desigualdade e Amnésia Coletiva
Neste contexto, a ideia de solidariedade coletiva esbate-se. A classe trabalhadora, enquanto sujeito histórico, fragmentou-se; o trabalhador tornou-se consumidor, e a comunidade deu lugar a agregados de interesses individuais. Contudo, o desaparecimento deste sujeito coletivo não significou o fim da realidade que o produziu. Pelo contrário, a exploração intensificou-se e globalizou-se.
O segundo paradoxo emerge aqui: vive-se um período de acentuada desigualdade, mas com uma capacidade reduzida de articulação coletiva para a combater. Em Moçambique, este paradoxo é particularmente agudo, manifestando-se, por exemplo, na presença generalizada de trabalho doméstico mal remunerado e frequentemente invisibilizado. Esta realidade reproduz estruturas históricas de dominação que remontam à escravatura e ao colonialismo, com a particularidade de que, hoje, essa relação é mediada por indivíduos que foram, eles próprios, historicamente dominados. O explorado torna-se explorador, não por perversão individual, mas pela inserção num sistema que normaliza tais relações.
Este fenómeno pode ser entendido como uma forma de amnésia estrutural, um processo social que desinscreve a memória coletiva. A história deixa de ser uma consciência crítica para se tornar um arquivo inerte, resultando na reprodução de formas de dominação sob novas aparências. O capitalismo contemporâneo reorganiza a subjetividade, dissolvendo identidades coletivas e substituindo a memória pela aspiração individual. A promessa de mobilidade individual torna-se o principal mecanismo de legitimação de um sistema que, estruturalmente, continua a produzir exclusão.
O Desafio: Reconstruir o Comum e Reinventar o Futuro
A observação de que “não se pode ser rico numa sociedade pobre” encerra uma profundidade filosófica considerável, apontando para a interligação intrínseca entre a condição individual e coletiva. A riqueza isolada num mar de pobreza é ontologicamente instável, incapaz de garantir segurança, dignidade ou futuro. Este reconhecimento exige uma nova “metanoia”, uma transformação da consciência que reconfigure as relações sociais e reinscreva o indivíduo no coletivo, reconstruindo o “comum” como condição para qualquer projeto humano.
O problema central do nosso tempo não é apenas a desigualdade, mas a ausência de estruturas capazes de a pensar e de a combater coletivamente. Partidos tradicionais perderam a sua capacidade mobilizadora, sindicatos foram enfraquecidos, e novas formas de organização ainda não se consolidaram como alternativas consistentes. O resultado é um espaço social fragmentado, onde a luta se torna difusa e a negociação, impossível.
Neste contexto, o 1º de Maio revela-se menos como celebração e mais como sintoma. Expõe a distância entre uma memória de luta e uma realidade de dispersão. O desafio, portanto, não é apenas recuperar o passado, mas reinventar o futuro, reencontrando a possibilidade de um horizonte comum que reconheça a interdependência radical entre os indivíduos e que seja capaz de produzir novas formas de solidariedade. Sem isso, os paradoxos atuais tenderão a intensificar-se, e a normalização da injustiça transformar-se-á em destino. A filosofia da história torna-se indispensável para restituir à sociedade a capacidade de se pensar a si mesma, de ver o tempo como campo de possibilidades e de reconhecer que o futuro é instituído, não dado.