Assembleia Geral, a casa onde o Sul fala mais alto do que o Norte

A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou recentemente uma resolução histórica que classifica o tráfico de escravos como o “crime mais grave contra a humanidade”. Esta iniciativa, proposta pelo Gana, reacende um debate antigo e sensível sobre a necessidade de reparações pelos danos causados por séculos de escravatura, evidenciando as diferenças persistentes entre o Norte e o Sul global.

O Peso da Opinião Global
Embora as resoluções da ONU não sejam legalmente obrigatórias, elas têm um grande peso moral e político, servindo como um barómetro da opinião internacional e um guia para a construção de normas. A votação desta resolução – 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções – mostra claramente a vontade da maioria dos países em reconhecer a gravidade da escravatura transatlântica e a necessidade de abordar as suas consequências duradouras.

Mais do que um simples reconhecimento histórico, a resolução exige que se discuta a questão das reparações, um tema que tem sido motivo de muita tensão entre os descendentes de escravizadores e escravizados por várias décadas.
A Força do Sul Global na ONU
A forma como a votação decorreu lembra a Campanha para a Nova Ordem Económica Internacional, onde os países do Sul usavam a Assembleia Geral para defender os seus interesses. Fica claro que a Assembleia Geral é um espaço onde a voz do Sul global se faz ouvir com mais força do que a do Norte. Os 123 países que votaram a favor são, na sua maioria, do Sul global, com uma participação forte de nações africanas e caribenhas. Curiosamente, entre os países de língua portuguesa, todos votaram a favor, com exceção de Portugal, o que levanta questões sobre as suas razões.
Justiça e Reparações: Um Grito do Passado no Presente
Os defensores da resolução, liderados pelo Gana, insistem na necessidade de justiça, pedidos formais de desculpas e um diálogo aberto sobre as reparações. Eles argumentam que as consequências da escravatura, que resultou no rapto e venda de cerca de 12,5 milhões de africanos entre os séculos XV e XIX, ainda se fazem sentir hoje, manifestando-se em disparidades raciais e sociais.
O Presidente do Gana destacou que a aprovação da resolução é uma forma de “salvaguardar contra o esquecimento” e de reconhecer o sofrimento de milhões. Por outro lado, os três países que votaram contra – os Estados Unidos (um dos maiores beneficiários históricos da escravatura), Israel e Argentina – representam uma oposição minoritária, mas politicamente significativa. Esta resistência, muitas vezes disfarçada em abstenções por parte de nações do Norte global, reflete a relutância em aceitar termos que possam abrir caminho a reivindicações jurídicas ou financeiras concretas.



