Sociedade

Moçambique: A Poesia da Sobrevivência na Xiguinha Improvisada

A narrativa da resiliência moçambicana ganha forma através de uma história tocante sobre a capacidade de transformar a escassez em sustento, onde a “xiguinha à manhambanense” se ergue como um símbolo da inventividade e do espírito inquebrável de um povo.

Em 2010, ao chegar a Maputo vindo de Quelimane para prosseguir os estudos em Jornalismo, Bernardo Soares deparou-se com uma realidade desafiadora. A capital, inicialmente idealizada como um lugar de seriedade, revelou-se um emaranhado de complexidades. Os primeiros tempos foram marcados pela busca incessante por um teto, levando-o a viver em condições precárias, onde a presença de mosquitos era uma constante e a fome, uma companhia diária.

A Soberania da Miséria e a Avó da Neid

Após um período de grande dificuldade, o autor encontrou abrigo numa casa alugada na zona da paragem Xai-Xai, com uma idosa conhecida apenas como a avó da Neid. Esta mulher, que a pobreza havia despojado do seu próprio nome, vivia com netos que lhe foram “depositados” pelos pais, num ciclo de promessas de “já volto” que se estendiam por infâncias inteiras. Apesar da miséria circundante, a avó da Neid exibia uma notável soberania doméstica, reinando sobre a escassez sem nunca se curvar a ela. Naquela casa, a fome não era uma ausência, mas uma presença palpável, uma personagem que tossia, rondava os pratos e dormia com todos.

O Milagre da Xiguinha Improvisada

A velha senhora, vendedora de carvão, possuía uma “ciência secreta”: a arte de inventar abundância onde só existia vazio. Um entardecer particularmente difícil, sem qualquer alimento para cozinhar, testemunhou o que o autor descreve como um “milagre moçambicano”. De um pequeno pedaço de mandioca, uma mão de tcheke, alguns grãos de amendoim e folhas de feijão-nhemba, obtidos através de uma engenhosa “arqueologia alimentar” e da solidariedade de vizinhos, a avó da Neid preparou uma refeição verdadeira. Com a serenidade de quem conversa com os espíritos da panela, ela cozinhou pacientemente, transformando ingredientes dispersos em um prato que alimentou os netos e o jovem estudante.

Moçambique: Um País de Xiguinha à Manhambanense

O que foi servido naquela tigela antiga e com uma colher que “talvez tivesse conhecido Samora” era xiguinha, mas não a xiguinha familiar da terra natal do autor. Era uma “xiguinha sobrevivente”, remendada, feita de improviso nacional, uma “xiguinha à manhambanense”. Anos depois, Bernardo Soares compreende que esta metáfora capta a essência de Moçambique: um país onde as pessoas “cozinham impossíveis”, mães transformam a escassez em refeição, avós remendam a pátria com o que têm, e o povo inventa felicidade com ingredientes que mal chegam. Esta realidade, embora trágica em sua raiz, revela a mais bonita poesia da resiliência e da capacidade de superação.

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