Sociedade

Município de Maputo perde batalha contra o lixo: Há ruas “entupidas”, cheiro e vermes a invadirem quintais

A cidade de Maputo enfrenta uma crise sanitária alarmante, com o Município a perder a batalha contra a acumulação de lixo. Ruas “entupidas”, um cheiro nauseabundo e a invasão de vermes nos quintais tornaram-se uma realidade diária para milhares de munícipes, especialmente nos distritos de KaMavota, KaMubukwana e KaMaxakeni.

O Cenário Desolador na Capital

Lixo espalhado por todo o lado, montes de resíduos que rivalizam com muros e vedações, e um cheiro que corta a respiração são a triste paisagem que domina vários bairros da capital moçambicana. A equipa do Evidências constatou que, em muitos pontos de recolha, os camiões de lixo não aparecem há semanas, nalguns casos, há meses. Esta situação força os moradores a conviver com larvas, moscas e ratos, e em casos extremos, a abandonar temporariamente as suas casas para escapar ao fedor e à proliferação de pragas.

As valas de drenagem entupidas com lixo e a água estagnada transformam cada ponto de recolha num foco ativo de doenças, expondo a população a riscos graves. Crianças deixaram de brincar nas ruas, e o convívio nos quintais foi abandonado, com famílias a trancar portas e janelas para tentar mitigar o impacto.

Testemunhos da População e a Realidade da Taxa de Lixo

Rafito, um menino de 12 anos do bairro Romão, distrito KaMavota, foi “flagrado” a deitar lixo no chão. A sua justificação simples e comovente: o contentor estava cheio e transbordava, sem outra opção para se desfazer dos resíduos. “Se eu subir esse lixo posso sujar e me aleijar”, explicou, apontando para vidros e outros materiais cortantes.

No Mercado do Romão, Angélica Remate, comerciante há mais de cinco anos, relatou que o último camião de recolha passou há cerca de dois meses. A situação agrava-se com a chuva, que espalha os resíduos e as larvas pelas estradas, prejudicando o comércio e afastando clientes. “Estamos a viver como se fôssemos animais”, desabafou, apelando ao município para uma recolha urgente.

Gertrudes Sitoe, moradora do Impanzol, expressou a sua indignação: “Pagamos taxa de lixo e, mesmo assim, estamos a viver rodeados de lixo”. Ela critica a inação das autoridades, destacando que o problema não se limita à sua zona, mas é visível em vários bairros como Magoanine, Albazine e Maxaquene.

Alertas de Especialistas e o Impacto Ambiental

A ambientalista Marisa Mate sublinha a ligação direta entre o lixo acumulado e o aumento de doenças como malária, cólera e outras infeções. “A mosca é um dos vectores que mais prolifera no lixo, ao pousar na comida, pode contaminá-la e provocar surtos de cólera”, explicou. As crianças são particularmente vulneráveis, brincando em locais com objetos cortantes e contaminados.

Além da saúde, o lixo afeta a estética urbana e a qualidade de vida. O mau cheiro, a poluição visual e a desvalorização dos bairros são consequências diretas da falha na recolha. Marisa Mate alertou ainda para os impactos ambientais: a decomposição do lixo orgânico liberta metano, um gás poluente, e a queima de resíduos, prática comum, liberta dióxido de carbono e outras substâncias tóxicas, especialmente plásticos.

A ambientalista defende que o município deve investir em infraestruturas e logística para garantir uma recolha regular, acompanhada de campanhas de sensibilização para que os munícipes contribuam, depositando o lixo no local adequado, reciclando e reutilizando.

A Posição do Conselho Municipal

Contactado pelo Evidências, o vereador de Infra-estruturas e Salubridade do Conselho Municipal de Maputo (CMM), João Munguambe, reconheceu as dificuldades. Atribuiu a fraca recolha à “escassez de recursos financeiros” e aos “impactos das manifestações pós-eleitorais”, que causaram danos em viaturas e equipamentos.

Munguambe confirmou o fim da parceria com o Município de Chimoio, mas minimizou o seu impacto. Garantiu que a situação deverá normalizar no início do próximo ano, com a aquisição de novos equipamentos e a assinatura de novos contratos. Até lá, a capital continua a sufocar sob montanhas de lixo.

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