Bispos Moçambicanos Alertam: Ataques a Igrejas Ameaçam Convivência Religiosa

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) expressou veemente condenação aos recentes ataques contra igrejas, comunidades cristãs e símbolos religiosos em Cabo Delgado, alertando para a crescente ameaça à convivência pacífica e à liberdade de culto no país.
Num comunicado conjunto divulgado esta quarta-feira, os bispos moçambicanos manifestaram “profunda tristeza” perante as notícias de profanações, destruições e atentados a locais de culto cristão. Sublinharam que tais atos não só ferem os crentes, mas também a “consciência moral de toda a nação”, classificando a destruição de uma igreja como uma “ferida aberta no coração do povo” e a profanação de um templo como um “atentado contra a dignidade humana e o direito fundamental à liberdade religiosa”.
Ataque à Paróquia de São Luís de Monfort
O comunicado refere-se, em particular, à destruição da histórica Paróquia católica de São Luís de Monfort, em Meza, distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado, por grupos terroristas em 30 de abril. Esta paróquia, um símbolo da presença cristã na região desde 1946, foi alvo de um ataque que também vitimou a casa do Padre, um centro de saúde e resultou na morte de pelo menos uma pessoa.
Os prelados recordam a história de Moçambique, marcada pela convivência harmoniosa entre diversas culturas e religiões, onde cristãos, muçulmanos e seguidores de religiões tradicionais africanas cresceram juntos em muitas famílias. A CEM rejeita “firmemente” qualquer tentativa de fomentar divisões, ódio ou desconfiança entre os cidadãos e condena “todas as formas de extremismo violento” e a “manipulação das populações”, especialmente de jovens.
Para os bispos, interesses religiosos, económicos, ambições de poder ou a exploração de recursos naturais não podem justificar mortes, deslocamentos forçados, destruição de comunidades e profanação de espaços sagrados. O comunicado adverte ainda para a perigosa instrumentalização da religião para legitimar a violência, prática que contradiz os princípios de fé que historicamente promovem a paz, hospitalidade e fraternidade. “Quem destrói um lugar de culto não serve a Deus, mas fere gravemente a humanidade”, afirmam os líderes católicos, apelando ao fim da intolerância.
Dados da Diocese de Pemba indicam que mais de 300 católicos foram mortos e pelo menos 117 igrejas e capelas destruídas em Cabo Delgado desde o início dos ataques terroristas em outubro de 2017. A Conferência Episcopal encoraja os cristãos da Diocese de Pemba pela sua perseverança “no meio de tanto sofrimento”, classificando-a como um “testemunho vivo do Evangelho”.
A CEM reafirma solidariedade espiritual, humana e material a todas as vítimas da violência em Cabo Delgado, independentemente da sua religião, etnia ou condição social, com especial atenção às famílias deslocadas. A Igreja Católica recorda que cabe ao Governo moçambicano garantir a segurança, a dignidade humana e o bem-estar da população, alertando para a possível expansão da violência para outras regiões do Norte do país. Defende que as autoridades devem tomar “uma decisão corajosa” para travar a intolerância religiosa e prevenir o surgimento de outras formas de radicalismo.
Por fim, os bispos apelam à união entre comunidades religiosas, autoridades civis, organizações da sociedade civil e cidadãos na promoção da paz, diálogo, justiça social e reconciliação nacional. “O futuro de Moçambique não pode ser construído sobre a violência, mas sobre a confiança mútua, a verdade, a tolerância e o respeito pela dignidade de cada pessoa”, conclui o comunicado.



