Daniel Chapo e o Desafio do Terror: Haverá luz ao fundo do túnel para Cabo Delgado?

Enquanto o mundo se foca noutros conflitos, o norte de Moçambique, em particular Cabo Delgado, vive um agravamento alarmante da violência terrorista. Com mais de um milhão de deslocados e a insurgência a expandir-se, o Presidente Daniel Chapo enfrenta o grande desafio de trazer paz e segurança a uma região devastada.

A Escalada da Violência e o Deslocamento Forçado
Desde julho de 2025, a província de Cabo Delgado testemunhou o deslocamento de mais de 300 mil pessoas, elevando o número total para mais de um milhão desde o início do conflito. A expansão das operações do braço local do Estado Islâmico tem sido implacável, com as incursões a atingirem a província de Nampula em novembro, forçando a fuga de 100 mil indivíduos num único mês.

Esta situação crítica evidencia a resiliência dos grupos insurgentes, que continuam a semear o terror e a desestruturar a vida das comunidades locais, que perdem as suas casas, terras e meios de subsistência.
A Eficácia da Resposta Militar em Questão
Apesar da presença de cerca de 5.000 militares ruandeses e dos esforços das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), a capacidade de contenção da insurgência parece estar a diminuir. Especialistas do monitor de conflitos Acled, como Tomás Queface, apontam para uma redução na frequência das patrulhas ruandesas e uma crescente pressão para que as forças nacionais assumam a liderança.
Esta transição tem, alegadamente, permitido aos insurgentes agir com maior audácia, desafiando a segurança nas áreas que antes eram consideradas mais estáveis.
Conflito de Interesses: População vs. Gás
O custo humano da guerra é devastador. Só este ano, o número de civis mortos aumentou 56% em comparação com 2024, totalizando cerca de 2.800 vítimas desde 2017. Borges Nhamirre, investigador do Instituto de Estudos de Segurança (ISS), questiona a prioridade da intervenção militar.
Segundo Nhamirre, o foco parece estar na proteção dos megaprojetos de Gás Natural Liquefeito (GNL), avaliados em 20 mil milhões de dólares, em detrimento da segurança das populações. Ele afirma que, “se o objetivo for garantir a segurança humana, as forças falharam. Mas se o objetivo for proteger os projetos de gás, então têm tido algum sucesso”.
A Urgência da Ajuda Humanitária e os Direitos Humanos
A crise humanitária é agravada por um aparente “esquecimento” da comunidade internacional, resultando numa diminuição da ajuda. As Nações Unidas reportam que o financiamento humanitário para Moçambique cobriu apenas 55% das necessidades estimadas este ano.
Os relatórios da Human Rights Watch (HRW) são ainda mais preocupantes, alertando para o recrutamento forçado de crianças e o aumento da violência sexual. Entre as 100 mil pessoas que fugiram em novembro, cerca de 70 mil são crianças, um grupo extremamente vulnerável à exploração pelos insurgentes.
Diálogo e o Caminho para a Paz
O Presidente Daniel Chapo, após tomar posse, manifestou abertura para o diálogo com os insurgentes. No entanto, a sociedade civil mantém-se cética. Após oito anos dos primeiros ataques em Mocímboa da Praia, a falta de uma estratégia política clara e de iniciativas concretas de mediação mantém o norte do país num ciclo vicioso de deslocamento e violência.
Para organizações como os Médicos Sem Fronteiras (MSF), a prioridade das populações deslocadas é clara: o regresso seguro às suas machambas e a retoma de uma vida normal. A questão que se impõe é se haverá, de facto, luz ao fundo do túnel para Cabo Delgado e para as suas gentes.



