“Verdade seja dita, a democracianão é para [África]”

O recente pronunciamento do líder golpista do Burkina Faso, Ibrahim Traoré, reacendeu um debate antigo e controverso sobre a aplicabilidade da democracia liberal em África, com declarações que chocaram muitos observadores.

“A Democracia Mata”: A Visão de Traoré
Segundo Traoré, a democracia não é para os africanos, e as pessoas “precisam de esquecer a questão da democracia” porque ela “mata”. Para fundamentar a sua posição, o líder burkinabe citou o caso da Líbia, argumentando que “em todo o mundo onde tentam estabelecer a democracia, isto é feito com derramamento de sangue”. Na sua perspetiva, a democracia é comparável à escravatura, uma afirmação forte que sublinha o seu afastamento dos ideais democráticos.

O Contraste entre Promessas e Realidade
Esta postura de Traoré contrasta fortemente com as promessas iniciais da sua equipa golpista de que reconduziria o país ao caminho democrático. O seu posicionamento espelha uma corrente de pensamento presente em certas elites políticas africanas, que duvidam da eficácia da alternância de poder para o desenvolvimento nacional e, consequentemente, veem-se como figuras insubstituíveis no comando do país.
Ascensão ao Poder e Desmantelamento Democrático
Ibrahim Traoré assumiu o poder em setembro de 2022, apenas oito meses após um golpe militar anterior, no qual ele próprio teve participação, que depôs o presidente eleito democraticamente, Roch Marc Kaboré. Os militares justificaram a tomada de poder com a promessa de combater grupos armados ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico que têm invadido e controlado vastas áreas do território burkinabe.
Inicialmente, Traoré, que ganhou alguma popularidade pela sua retórica anti-ocidental, prometeu organizar eleições em 2024. Contudo, um ano depois, recuou na sua palavra, afirmando que as eleições só seriam realizadas quando todas as regiões do Burkina Faso fossem consideradas seguras para a votação.
Medidas Anti-democráticas
As ações do governo de Traoré têm reforçado a sua intenção de consolidar o poder e afastar-se da democracia. Em janeiro deste ano, mais de 100 partidos políticos foram dissolvidos e os seus bens confiscados. O Parlamento e todas as atividades políticas já estavam suspensos desde que Traoré chegou ao poder. Em julho de 2025, a Comissão Eleitoral Nacional Independente foi também dissolvida, com o governo a alegar que a agência era “demasiado onerosa”, uma justificação que levantou muitas questões sobre a real intenção por trás da decisão.



