Crise na Saúde: Profissionais mantêm greve e denunciam “massacre silencioso

A Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) reafirmou a continuidade da greve nacional, denunciando a alegada falta de seriedade do Governo no processo de diálogo e a grave crise que assola o sector da saúde no país. A agremiação pede a demissão do Ministro da Saúde, Ussene Hilário Isse, face ao que descreve como um “massacre silencioso” de cidadãos.
Mortes Evitáveis e Falhas no Sistema
Anselmo Muchave, Presidente da APSUSM, revelou que, desde janeiro de 2026, foram registadas 2.673 mortes consideradas evitáveis, resultantes da escassez de medicamentos, material cirúrgico e condições básicas de atendimento nas unidades sanitárias moçambicanas. Segundo Muchave, muitos pacientes perdem a vida por falta de soro, antibióticos, luvas, anestésicos e oxigénio, devido a doenças que seriam facilmente tratáveis em contextos com sistemas de saúde funcionais.
Diálogo “Sem Seriedade” e Acusações ao Governo
A greve nacional, iniciada a 16 de janeiro e sucessivamente renovada em períodos de 30 dias, surge em protesto contra o incumprimento de promessas governamentais relativas às condições de trabalho e direitos laborais. A APSUSM acusa o Executivo de manter um silêncio preocupante e de promover um diálogo “sem seriedade”, onde os negociadores não possuem mandato decisório nem domínio técnico para resolver os problemas apresentados. Muchave descreve as reuniões como “encenação” para “ganhar tempo”, sem a produção de atas ou compromissos formais.
Irregularidades no Armazenamento de Medicamentos
Em monitorias realizadas ao Centro de Medicamentos e Artigos Médicos, a APSUSM identificou graves irregularidades, incluindo o envio de medicamentos próximos do prazo de validade ou já expirados para as unidades sanitárias. Denunciou ainda a existência de armazéns com infiltrações, falta de higiene e controlo de pragas, com a presença de roedores e pombos, o que representa um sério risco de contaminação dos fármacos destinados aos pacientes. A associação questiona a atuação do Ministério da Saúde e exige maior fiscalização.
Exigências e Próximos Passos
A APSUSM critica o Ministro da Saúde por alegadamente priorizar ações de imagem em detrimento da resolução dos problemas cruciais do setor. Entre as exigências dos profissionais estão o pagamento de subsídios e horas extraordinárias, progressão na carreira, garantia de continuidade de estudos, e a aquisição regular de medicamentos e material hospitalar. A associação enfatiza que “direitos dos profissionais não podem ser tratados como favores”.
A greve continuará até à assinatura de um acordo vinculativo com prazos definidos e mecanismos independentes de monitoria. A APSUSM anunciou a suspensão da sua participação em reuniões sem poder de decisão e a submissão de denúncias ao Provedor de Justiça, ao Parlamento e a parceiros internacionais. Prepara-se também uma mobilização nacional para exigir a demissão do Ministro Ussene Hilário Isse e a implementação de medidas urgentes para restaurar o sistema nacional de saúde, defendendo que “Não falta vontade dos técnicos. Falta gestão, seriedade e responsabilização”.



