Debate

O “Xizivene” existe, mas o rio não é só político: Resposta a Adriano Nuvunga

Em resposta às pertinentes questões conceptuais levantadas por Adriano Nuvunga, o autor expressa gratidão pela referência ao seu trabalho e pela seriedade com que se confrontam argumentos no debate público moçambicano, um exercício vital para o país.

A Necessidade de Linguagem Acessível no Debate Económico

Nuvunga criticou a expressão “menos 1” por alegada falta de “densidade analítica”. O autor aceita a crítica em sentido estrito, reconhecendo que uma metáfora não substitui um modelo econométrico. Contudo, defende que a expressão foi uma simplificação deliberada com fins comunicativos, um ponto de entrada para um público alargado, especialmente numa entrevista. Argumenta que exigir que toda a comunicação económica satisfaça critérios académicos de artigos peer-reviewed, num país com os níveis de literacia económica de Moçambique, representa um elitismo intelectual que afasta os cidadãos que se pretende incluir num pacto político mais abrangente. A necessidade de linguagem acessível é fundamental para o debate público efetivo.

Adicionalmente, o autor manifesta estranheza com o uso do termo “Xizivene” por Nuvunga, que o assume como um vocábulo de conhecimento geral, questionando se não estaria a pressupor que todos falam Changana, sendo um bom Zambeziano que não encontra a palavra no dicionário da língua portuguesa.

Para Além do Determinismo Político: Ação Simultânea

O autor concorda com a tese central de Nuvunga de que a economia moçambicana está significativamente paralisada por défices de governação, captura do Estado e erosão da confiança institucional. As instituições, como Douglas North bem apontou, são as regras do jogo, e quando favorecem a extração de valor em detrimento da sua criação, o crescimento genuíno torna-se impossível.

No entanto, a divergência reside no que o autor identifica como um perigoso deslizamento para um “determinismo político” por parte de Nuvunga. Esta visão sugere que a crise é tão estrutural e total que qualquer ação económica seria ilusória enquanto a reforma política não estivesse concluída. Tal posição tem uma consequência prática preocupante: paralisa a ação técnica enquanto se aguarda uma perfeição política.

O Rio Tem Fundo, Mas Também Corrente

A imagem do “Xizivene”, o ponto mais fundo do rio, é poeticamente forte. Contudo, o autor lembra que rios têm fundo porque têm margem, e a questão que Nuvunga não responde é: como se sai de lá? Propor que “primeiro se resolve a política, depois a economia” é uma sequência que nenhum país em desenvolvimento conseguiu seguir de forma limpa. O Ruanda, citado pelo próprio Nuvunga, não resolveu a política antes de crescer; cresceu enquanto construía instituições, num processo simultâneo e mutuamente reforçado.

Medidas económicas com consequências políticas diretas, como a centralização da importação de arroz que Nuvunga critica, são exatamente as contradições dentro do sistema que criam as fissuras por onde a reforma pode entrar. Ignorar estas oportunidades em nome de uma pureza analítica que separa “problema político” de “problema económico” é perder a chance de identificar pontos de alavancagem reais.

Moçambique pode estar no “Xizivene”, mas os rios têm corrente, mesmo no ponto mais fundo. A questão não é esperar que as regras do jogo mudem por decreto, mas sim identificar onde a corrente existe e nadar com ela. O autor reforça que o seu campo de atuação é o debate económico, enquanto o de Nuvunga é o político, e que certas abordagens carecem de profundidade técnica para o debate sério. O debate iniciado por Nuvunga é necessário e deve continuar, com mais vozes, mais dados e mais disposição para discordar em público, pois em Moçambique, ainda é possível.

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