“Tirem-nos tudo mas deixem-nos a música!”*

A poesia de Noémia de Sousa, uma das vozes mais marcantes da literatura moçambicana, continua a ser um farol de esperança e resistência para as mulheres do nosso país. O seu poema “Súplica”, escrito num período de luta contra o colonialismo, mantém uma atualidade impressionante, ecoando os desafios e as conquistas das mulheres moçambicanas de hoje.

A “Súplica” de Noémia de Sousa: Um Legado Vivo
Noémia de Sousa, carinhosamente conhecida como a “Mãe dos Poetas Moçambicanos”, usou a sua escrita para denunciar as arbitrariedades e injustiças da dominação colonial. No seu famoso poema “Súplica”, a “música” não é apenas um som, mas sim a representação da voz, da identidade e da autonomia feminina. Este poema, que já foi um grito contra o opressor, hoje serve de escudo para as mulheres que, apesar das grandes conquistas, continuam a batalhar para manter a sua essência e dignidade.

Os versos de Noémia espelham as lutas diárias da mulher moçambicana contemporânea. Elas procuram expandir o seu espaço em diversas áreas, seja na política, na economia, no jornalismo, na justiça, nas artes ou no mundo digital. A sua “canção”, ou seja, a sua vontade e determinação, quer ser soberana também em setores como a agricultura, onde o acesso à titularidade da terra e ao crédito financeiro ainda é desigual e um grande desafio.
A “Música” como Voz de Libertação
Nos tempos que correm, a “Súplica” ganha um novo significado na resistência das mulheres rurais, que com o seu saber e esforço, mantêm viva a economia do país. Infelizmente, a mensagem do poema também nos lembra de problemas graves que ainda assombram a nossa sociedade, como o tráfico de mulheres, a violência e a exploração sexual – situações que são, em essência, uma “venda de mercadoria”, tal como abordado tacitamente no poema.
A poesia de Noémia de Sousa ensina-nos que a “música” traz liberdade. Ela sublinha que “seremos sempre livres se nos deixarem a música”, ligando este conceito à educação e ao empoderamento. Estas são as ferramentas cruciais para que as mulheres possam escapar da exploração e proteger a sua dignidade. Seja na literatura, no ativismo ou no empreendedorismo, a “música” serve para reconstruir o que foi perdido, provando que, como diz o poema, “mesmo mortos, viveremos” – as mulheres continuam vivas na poesia e na vida de todos, sem distinção de género.
Novas Vozes, Mesma Luta
Hoje, a metáfora da música evoluiu. De um consolo para o escravo, transformou-se num grito de liberdade definitiva. Várias moçambicanas estão a dar a sua “música” – a sua voz política, académica, artística, religiosa, rural – para ditar o rumo de uma sociedade mais justa. Poetas como Énia Lipanga e Deusa D’África continuam este caminho, usando a poesia para denunciar injustiças e quebrar silêncios, especialmente aqueles impostos às mulheres.
Como Énia Lipanga bem disse, “num contexto em que muitas ainda são ensinadas a calar, escrever e dizer poesia torna-se um acto político e de existência. É afirmar, eu estou aqui, eu sinto, eu penso mesmo que vocês homens não queiram”. Esta nova geração de vozes femininas reforça a mensagem intemporal de Noémia de Sousa, mostrando que a luta pela autonomia e dignidade da mulher moçambicana está mais viva do que nunca.



