Gana alinha-se a Moçambique no boicote da Cimeira Africana de Energias

O Gana anunciou que vai boicotar a próxima Cimeira Africana das Energias, que se realizará em Londres, de 12 a 14 de maio. Esta decisão alinha-se com Moçambique e outros países africanos, que manifestam uma crescente frustração com a discriminação e a exclusão das vozes africanas em debates cruciais sobre o futuro energético do continente.

A Câmara de Energia do Gana divulgou um comunicado a pedir às autoridades ganesas para reconsiderarem a sua participação na cimeira. A organização manifestou profunda preocupação com as práticas de contratação discriminatórias e a contínua marginalização de profissionais africanos. Para a Câmara, a indústria energética africana deve ser moldada com as instituições e empresas do continente no centro das discussões, não como meros convidados opcionais.

Um Movimento de Boicote Crescente
A decisão do Gana de se retirar reflete ações semelhantes tomadas por outras partes interessadas africanas. Moçambique, por exemplo, já tinha anunciado o seu boicote à cimeira em março de 2026. Além disso, os ministros do petróleo da Organização Africana de Produtores de Petróleo também decidiram não participar no evento. Este movimento sinaliza uma mudança mais ampla no setor, onde governos, companhias petrolíferas nacionais e empresas locais estão cada vez mais a opor-se a plataformas que excluem a participação africana.
O boicote não é apenas sobre um evento, mas sim sobre princípios, representação e a garantia de que os países africanos sejam tratados como parceiros iguais nas discussões sobre os seus próprios recursos. A Câmara de Energia do Gana sublinhou que “o Gana não é um mero espectador na história energética de África” e que “África não pode ser tratada como um mercado para atrair participantes, enquanto os africanos são tratados como participantes opcionais na execução”.
O Contexto Energético do Gana
A decisão do Gana surge num momento crucial para o país, que está focado em estabilizar a produção de petróleo, rentabilizar o gás e direcionar investimentos para infraestruturas que impulsionem o crescimento industrial a longo prazo. O Gana está a promover ativamente o investimento e o desenvolvimento liderados por africanos no seu mercado energético. Em 2026, o país tem visto um aumento de investimentos, com cerca de 3,5 mil milhões de dólares comprometidos para perfuração e gestão de reservatórios, além de esforços para explorar novas áreas na Bacia do Volta.
As licenças dos campos Jubilee e TEN foram prorrogadas até 2040, e há avanços significativos na Segunda Unidade de Processamento de Gás, na Central Térmica de 1,2 GW e no setor de GPL. Estes projetos demonstram um mercado em progresso, ansioso por extrair mais valor dos seus recursos.
Apelo à Inclusão e Transparência
Apesar deste dinamismo, as ações dos organizadores de conferências internacionais em continuar a excluir profissionais africanos podem comprometer as parcerias e o crescimento que a indústria tenta construir. A Câmara de Energia do Gana destacou que “o setor energético africano não pode aceitar um futuro em que conferências baseadas na participação africana excluam profissionais africanos de papéis significativos nos bastidores”.
Para Joshua B. Narh, presidente Executivo da Energy Chamber Ghana, as plataformas que levam o nome de África devem refletir o povo africano. Ele defende que, até que haja transparência e inclusão mensurável, é razoável que as partes interessadas ganesas reconsiderem a sua participação. A Câmara apela a instituições, decisores políticos, engenheiros, investidores e académicos ganeses para que adotem esta abordagem, pelo menos até que a Frontier Energy Network, organizadora da cimeira, demonstre medidas corretivas.
Em resumo, o apelo do Gana ao boicote vai além de uma única cimeira. Representa um movimento mais amplo da indústria em direção a um desenvolvimento, diálogo e estratégias de investimento liderados por África. Para que o continente desenvolva plenamente os seus recursos de petróleo, gás e energia, é fundamental que controle não só os seus recursos, mas também a sua narrativa, as suas plataformas e as suas parcerias.



