“Chuvas extremas e noites mais quentes revelam novo padrão climático no País” – revela INAM

Moçambique está a atravessar uma transformação climática profunda, com eventos meteorológicos extremos a tornarem-se a nova norma. O mais recente Relatório Anual do Estado do Clima em Moçambique, divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INAM), revela que o ano de 2025 trouxe dados irrefutáveis de que o clima no país já não é o mesmo de antes.

Um Clima em Transformação
A análise detalhada das condições registadas em 2025 aponta para a emergência de um novo padrão climatológico. Este é caracterizado por uma combinação preocupante: temperaturas constantemente elevadas e episódios de chuva excepcionalmente intensa, fenómenos que, no passado, eram considerados raros ou isolados.

Um dos indicadores mais fortes desta mudança, de acordo com o INAM, é a análise do período de retorno da precipitação. Esta ferramenta estatística mede a frequência com que eventos extremos acontecem, e os resultados são alarmantes.
Chuvas Extremas: O Que os Números Dizem
O relatório, citado pela Revista Terra, indica que as chuvas registadas no trimestre de Outubro a Dezembro de 2025 superaram largamente os valores médios históricos. Em grande parte do território nacional, estes volumes de precipitação configuram eventos que, estatisticamente, só deveriam ocorrer uma vez a cada 50 a 100 anos.
Nas províncias do norte, como Nampula e Niassa, os níveis de chuva correspondem a episódios que, em termos estatísticos, só aconteceriam uma vez em mais de um século. Este padrão estendeu-se também ao centro e sul do país, incluindo áreas de Zambézia, Manica, Sofala e Gaza, onde os valores observados também indicam chuvas com períodos de retorno superiores a 100 anos.
Especialistas alertam que a crescente frequência de eventos classificados como “raros” sugere que o próprio conceito de normalidade climática está a mudar em Moçambique. O INAM atribui parte desta instabilidade à forte influência da Oscilação de Madden-Julian (MJO), um fenómeno climático global que intensifica a formação de nuvens e a precipitação intensa, especialmente no norte do país.
“A repetição deste tipo de configuração atmosférica reforça a percepção científica de que Moçambique está cada vez mais exposto a mecanismos climáticos globais que amplificam extremos locais”, conclui o documento do INAM.
Noites Mais Quentes e as Implicações
Para além das chuvas excecionais, o estudo do INAM revela que as temperaturas também estão a subir significativamente. Na maior parte do país, a temperatura máxima registou um aumento, com algumas zonas de Nampula, Tete, Manica, Sofala, Inhambane e Gaza a apresentarem mais de 1°C acima dos valores médios anuais.
Mas é nas temperaturas mínimas, aquelas que se registam habitualmente de madrugada, que as anomalias são mais notórias. Foram registados aumentos superiores a 1.5°C em várias áreas, incluindo Niassa, Cabo Delgado, Nampula, Manica, Sofala, Inhambane e Gaza. O estudo sublinha uma “tendência de subida significativa” das temperaturas mínimas, o que se traduz em “menos noites frias e uma maior frequência de noites quentes”.
Impactos e o Futuro Climático de Moçambique
Na prática, o INAM explica que estas mudanças significam que os períodos secos tendem a tornar-se mais severos, enquanto os episódios chuvosos concentram grandes volumes de água em curtos intervalos de tempo. Esta é uma assinatura típica das alterações climáticas em regiões tropicais.
Historicamente, eventos extremos eram vistos como ocorrências isoladas. Contudo, a sucessão recente de cheias, ciclones intensos, ondas de calor e chuvas recorde sugere que Moçambique poderá estar perante uma redefinição climática profunda, diferente do que se observou nas últimas décadas. Quando eventos com um retorno estatístico superior a 100 anos começam a ocorrer em intervalos cada vez mais curtos, os especialistas alertam que o país está a enfrentar uma mudança nas suas referências climáticas.
A confirmação deste novo padrão climatológico acarreta implicações sérias e profundas. Entre elas, destacam-se o maior risco de cheias urbanas e rurais, a pressão acrescida sobre as infraestruturas hidráulicas, a instabilidade nos calendários agrícolas e o consequente aumento da vulnerabilidade alimentar e económica do país.


