Fim do Gás em Pande e Temane: Moçambique corre contra o tempo para evitar “buracos vazios” em 2028

Moçambique enfrenta um desafio gigante com o fim da exploração de gás natural em Pande e Temane, província de Inhambane, agendado para 2028. O anúncio da multinacional sul-africana Sasol fez soar o alarme, levantando um debate urgente sobre o que o país realmente ganhou com décadas de extração e a necessidade de mudar a gestão dos seus recursos.

O Legado dos “Buracos Vazios”
Para analistas moçambicanos, o encerramento das operações em Pande e Temane expõe a fragilidade de uma economia que se baseia em exportar matéria-prima sem a processar localmente. Hélder Jauana, comentador, alerta que Moçambique corre o risco de ficar apenas com “buracos”, tal como já acontece noutras províncias.

“Olhem para Tete — quantos buracos fizemos por causa do carvão? Que outras indústrias nasceram à volta?”, questiona Jauana. Ele defende que o Estado deve ter mais controlo estratégico sobre as concessões para garantir que o gás seja processado cá, criando empregos e valor antes de ser exportado.
Desigualdade na Criação de Emprego e Desenvolvimento
Alberto da Cruz, outro comentador da STV, revela a grande diferença na forma como o recurso foi aproveitado. Enquanto o projeto em Moçambique gerou apenas cerca de 300 empregos diretos, o mesmo gás contribuiu para a criação de mais de 70 mil empregos na África do Sul.
“Cerca de 90% de toda a indústria de gás na África do Sul dependia do gás de Temane”, lembra Da Cruz, sublinhando que, após anos de exploração, a região de Temane não viu um desenvolvimento significativo. “Temane é caminho, não é destino. Nada se construiu à volta de um bem que podia mudar a estrutura da nossa economia.”
O Caminho a Seguir: Auditoria e Transformação Local
Perante o cenário iminente de 2028, os especialistas dão um conselho forte: Moçambique deve parar de negociar novos acordos de gás e petróleo em áreas ainda por explorar. O objetivo seria investigar bem os erros cometidos nos contratos atuais e criar leis que obriguem a que os recursos sejam transformados localmente antes de serem exportados.
A grande questão para o Governo moçambicano é se haverá tempo e vontade política para mudar esta situação antes que as últimas reservas de Inhambane se esgotem, deixando para trás apenas as infraestruturas de uma indústria que serviu mais os interesses estrangeiros do que o desenvolvimento do país.